Se há algo no mundo da religião que parece não sair de moda é o ato litúrgico, a celebração. Todas as religiões têm seus cultos. Pessoas de fé, independente do credo professado, reúnem-se em oração para celebrar, dar glória, oferecer sacrifícios, pedir perdão, cantar louvores. O culto à divindade parece fazer parte da vida humana; poderíamos até dizer que ele é uma necessidade antropológica. Mesmo na religião católica, hoje tão ameaçada na sua hegemonia por causa do crescimento das igrejas evangélicas e de outras correntes religiosas, percebemos ainda a força da celebração litúrgica. Pessoas já desligadas da prática católica ainda conservam o velho costume de frequentar a missa, nem que seja de vez em quando! Mesmo os chamados católicos não-praticantes vão a algumas celebrações especiais: o casamento de um amigo, as exéquias ou a missa de sétimo dia de um parente, o batizado de um afilhado… A velha e surrada missa continua ajuntado multidões, apesar do notável esvaziamento das igrejas. A adoração ao santíssimo ou as novenas e procissões continuam mobilizando grupos enormes. E as peregrinações? E os eventos em torno de nomes religiosos importantes como os santos? Nós teríamos um sem-fim de exemplos para lembrar como nossa gente gosta de se ajuntar para celebrar. A prática cotidiana não nos desmente!

E na catequese? Será que a celebração também tem sua importância, tem seu papel? Muita gente acha que catequese é aula de catecismo. Uma espécie de ensino religioso para crianças com finalidade de prepará-las para receber a primeira comunhão ou a crisma. Nada mais equivocado! A catequese, como já dissemos anteriormente, não é aula. Nem seu fim é a recepção de um sacramento. A catequese é lugar de encontro com Deus e não de aprender religião. Certamente que, ao fazer nosso encontro com Deus, vamos conhecendo-o pouco a pouco, vamos entendendo melhor nossa religião, vamos mergulhando no mistério que professamos e nos tornamos capazes de dar as razões da nossa fé. Mas o objetivo da catequese não é ensinar religião. É dar às pessoas a oportunidade de conhecer Jesus e se apaixonar por ele, tornando-se de fato seu seguidor.

Um bom exemplo desse conhecimento de Deus encontra-se no livro de Jó. O livro de Jó é uma novela, uma espécie de conto, escrito para combater uma teologia estranha daquela época, a teologia da retribuição – infelizmente não ausente de nossas igrejas hoje! – que dizia que Deus premia os bons e castiga os maus. O autor, muito inteligente, criou uma novela cujo personagem principal é um homem muito justo e santo que só recebe castigos e sofrimentos como recompensa de sua vida reta. Jó ficou azedo com Deus, afinal haviam lhe ensinado que sofrimento era Deus castigo de Deus, e Jó quis uma satisfação. Os amigos de Jó tentaram explicar, mas explicações teológicas não foram suficientes. Um tal Eliú tentou intervir com enormes discursos, mas também não deu resultados. Até que Deus se manifestou a Jó. Foi no encontro com Deus que o coração de Jó se aquietou. Ele disse mais ou menos assim: “Ah, agora sim, Senhor, eu te vi face a face, porque antes eu te conhecia só de ouvir falar de ti”. Depois do encontro com Deus, Jó ficou em paz. Os sofrimentos da vida continuaram, mas Jó entendeu que a vida é sofrida mesmo e que, se estamos com Deus, todo sofrimento pode ser superado ou suportado, pois Deus é nossa força. Ele entendeu que Deus não castiga ninguém, nem fica premiando os bonzinhos. Deus simplesmente está conosco nos animando na caminhada, pois as pelejas da vida são muitas.

Tomando o exemplo de Jó, podemos dizer que a catequese quer ajudar cada criança, jovem ou adulto a fazer seu encontro pessoal com Deus. Encontrar Deus, fazer sua experiência cristã de Deus, não é o mesmo que estudar os fundamentos da fé. O estudo não promove necessariamente o conhecimento de Deus, apesar de facilitá-lo. Toda teologia dos amigos de Jó e de Eliú não fizeram com que Jó se sentisse mais perto de Deus. É bem verdade que uma boa teologia tem seu lugar de destaque e não pode ser desprezada, assim como uma teologia distorcida só trará prejuízos para o conhecimento de Deus. Mas a experiência de Deus, o encontro pessoal com ele, não vem de raciocínios teológicos, mas da abertura sincera de coração para Deus, que se manifesta em nossa vida nas pequenas coisas. Promover esse encontro não é coisa fácil. Por isso a importância da celebração na catequese.

O que é celebrar? Celebrar é fazer culto, ou seja, cultuar ou cultivar. O que é que a gente cultiva? A celebração é aquele encontro onde cultivamos nossa amizade com Deus. Se a gente vai a um culto e não cultiva essa amizade, mas apenas cumpre rubricas (regras litúrgicas), então a celebração não cumpriu seu fim. Quando vamos a um ato litúrgico, devemos sair de lá mais perto de Deus do que quando chegamos, precisamos ter reforçado nossos laços de amizade e comunhão com ele, precisamos ter aprendido a confiar mais nele e a nos comprometer com o que ele nos ensina. O culto não é uma obrigação dominical como muitos entendem que é a missa. O culto não é para acalmar a cólera de Deus. O culto não uma obrigação chata que devemos cumprir por intransigência divina. Não! O culto é lugar do encontro com Deus, que se manifesta na ação litúrgica da comunidade reunida. Por isso, catequese e liturgia andam de mãos dadas. Não podem ser separadas de jeito nenhum. A catequese deve ser litúrgica, ou seja, deve celebrar por meio de gestos e símbolos o mistério pascal e promover o encontro com Deus. E a liturgia deve ser catequética, ou seja, ajudar a aprofundar por meio da escuta da Palavra de Deus o mistério pascal que a assembleia reunida celebra. Catequese e liturgia: uma coisa complementa a outra. Daí a importância das celebrações na catequese: momentos profundos, orantes, verdadeiras liturgias que ajudam a turma a fazer seu encontro com Deus. Devem, pois, os catequistas capricharem na preparação destes momentos celebrativos, como sugerem os livros da coleção Catequese Permanente.


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