“Jesus fitou-o com amor” (Mc 10,21)

“Basta um instante
E você tem amor bastante”
(Paulo Leminsk)

 

O amor e sua força vêm sendo cantados e poetizados por muitos. Mas há sempre o que dizer sobre isso, uma vez que o amor nos escapa e nos surpreende com seu poder avassalador. Quando pensamos que a existência se tornou árida, que não é mais possível ver sinais de vida no deserto, um pequeno gesto de amor é bastante para reacender a chama da fé e da esperança em nossos corações. Como escreveu Fernando Soares (música interpretada por Dois de Um), “Bastou você chegar pra eu me encantar e só. Bastou você me olhar pra eu me apaixonar e só”. Um instante de ternura pode trazer encantamento para uma vida toda.

Tenho me perguntado sobre essa força do amor. E tenho me esforçado para treinar o olhar de forma a não perder os sinais de seu registro na história, que se dão em forma de gratuidade e ternura: uma criança que acolhe a outra, uma mãe que amamenta seu filho, uma pessoa que salva uma árvore ou um animal, um cuidado com o rio que implora outra chance, um apaixonado que se esmera em ver a amada feliz, uma família que acolhe os refugiados… Gestos de crença na vida humana e na natureza, sinais de candura, de ternura, de zelo, coisas próprias do amor. Recordando Beto Guedes: “o amor estava ali, mas eu nunca saberia”. Se o olhar não estiver aguçado, a chance passa; permanecemos na sequidão da dor, sem o alento que só amor pode trazer ao coração.

Lembro-me de Dom Luciano contando um episódio comum, mas curioso A mãe velhinha no hospital seguia noite adentro consolando seu filho com necessidades especiais internado num hospital público. Mal acomodada numa cadeira, sem poder dormir, a pobre mãe apenas balbuciava uma palavra aos ouvidos do filho ou lhe afagava a cabeça. Quando isso não era suficiente, ela encostava sua fronte na dele, olhando-o bem nos olhos, fazendo-o sentir seu hálito. E ele se acalmava. Não podia fazer mais do que isso. Não podia lhe arrancar a dor, não podia mudar sua história, mas podia ser presença que consola: palavra que revigora, mãos que acariciam, olhos que encantam. E o filho se acalmava. Quando voltava a se irritar com a dor, a cena se repetia. E bastava um instante de ternura para consolar o aflito.

Na maioria das vezes, silente, discreto, como o amor de mãe, o amor permanece velante, sustentando a vida. Não faz alarde, não toca a trombeta, nem se arvora a pronunciar juízos, tudo como ensina o Evangelho de Mateus (cf. Mt 6). Subterrâneo, quase imperceptível – não fosse seu magnetismo e sua potência vivificante –, o amor seguiria anônimo. Mas como é seu costume limpar as sujeiras que nosso egoísmo espalha e fazer brotar a vida que nosso narcisismo sufoca, acabamos por detectar por onde ele passa. E basta uma faísca sua; um instante de ternura é suficiente para a gente ter amor bastante: uma espécie de poupança emocional que se acumula com taxas bem elevadas, bem ao contrário da lógica bancária exploradora de nosso sistema capitalista.

Outro episódio marcou minha vida. Numa casa onde me hospedei certa vez, a criança pequena aguardava a chegada do sono no andar de cima. A mãe, eu e mais alguns conversávamos na sala. Insone a criança gritou: “Mãe, fala alguma coisa”. E a mãe murmurou: “Hum…”. A criança sossegou e dormiu. Bastou sua voz amorosa para acalmá-la e confortá-la. Nem precisou de uma palavra; bastou o timbre conhecido de sua voz maternal. Intrigada, questionei a mãe que me explicou que esse era o ritual da noite: ela colocava a filha na cama, fazia companhia por uns instantes e descia para terminar o trabalho do dia. De quando em quando, a criança gritava: “Mãaaaeee!”. Ela dizia: “Estou aqui”. A menina sossegava. Com o passar do tempo, bastava um resmungo de presença. Apenas um huummm era suficiente.

Também na bíblia temos cenas que mostram como um gesto ou um olhar amoroso são capazes de impactar. O episódio do homem rico, aquele que ficou triste porque tinha muitos bens e não se sentiu apto a atender de imediato o apelo de Jesus, quando relatado pelo evangelista Marcos, traz um detalhe intrigante. Para Marcos, Jesus não lançou um olhar comum para aquele homem, mas sim um olhar amoroso. Conta o texto que o homem “voltou pesaroso para casa” (Mc10,22). Marcos não diz que o homem largou tudo para fazer o discipulado, mas revela que aquele olhar amoroso não ficou sem efeito. O amor de Jesus, seu olhar de ternura, deixou-o impactado, pesaroso, pensativo. O Evangelista nos mostra como basta uma pequena experiência do amor para impactar a gente por muito tempo. De novo, acertou Leminsk: “basta um instante e você tem amor bastante”. O jeito é seguir amando…


Crônica anterior:    112. Quebrando pedras, plantando flores
Próxima crônica:    114. Colo de pai
Print Friendly, PDF & Email