“Tem ouvidos e não escuta:” (Jr 5,21)

“Num ouvido, escrito: ENTRADA,
Noutro ouvido, escrito: SAÍDA.”
(Paulo Leminsk)

Não raro escutamos alguém dizer que suas palavras foram desperdiçadas, atiradas ao vento, ditas a um público desinteressado que não lhe prestou nenhuma atenção. Até os profetas reclamaram: falaram ao vento; os ouvintes tinham ouvidos, capacidade de audição, mas não os ouviram (cf. Jr 5,21). E Jesus também reclamou. Ao contar as parábolas falou: “Alguns tem ouvidos, mas não ouvem…” (Mc 4,17).

Esse problema de escutar o som das palavras mas não acolher o dito é coisa antiga. Desde pequenina, depois de ouvir conselhos do meu pai, sua pergunta era sempre a mesma: “escutou o que eu disse ou entrou num ouvido e saiu no outro?”. Assim advertida, aprendi desde cedo que palavras não devem ser desperdiçadas. Elas têm força, tem poder. Podem curar corações sofridos, estancar hemorragias do coração… Mas podem também provocar sofrimentos horrendos, fazendo sangrar o peito até a morte.

Foi aí que o mundo das palavras me encantou. Descobri que palavras são pérolas. E encontrei, nos livros, nos gibis, nas revistas e nos jornais, um mundo de letras e palavras que faziam sentido e me seduziam. Cada palavra grafada estava grávida de sentido, plena de significado, abrindo outras possibilidades, sugerindo outras interpretações. Nas entrelinhas dos registros, havia tanto sentido quanto nas próprias linhas ali documentadas na escrita. Cada palavra dita era o dito e o não-dito. Em cada frase que registrava palavras de ternura, uma janela nova se abria. Em cada palavra brusca e mal dita, uma porta se fechava… Foi assim que descobri a magia das palavras. Aprendi, então, a escolhê-las com critério, a não desperdiçá-las, a não jogá-las ao vento. E aprendi também a acolher a palavra a mim dirigida com a reverência que ela e seu portador merecem.

Talvez por causa desse encantamento com as palavras, desde cedo amei a Sagrada Escritura. Foi amor à primeira vista. Desde meu primeiro contato com a bíblia, ela me seduziu, me conquistou. Entendi que ela era diferente, apesar de relatar histórias tão iguais às nossas. Na cotidianidade de seus relatos – tão humanos, tão próximos! –habita uma força que faz viver. E, se cada palavra dita ou registrada em códigos num texto precisa ser lida e dita com carinho, ainda mais o texto sagrado.

Tamanha era minha reverência às palavras que demorei muito para aprender a relativizá-las. Numa discussão, num momento de ira, palavras pronunciadas sem o devido cuidado me feriam mortalmente. E, por dias ou meses, elas ressoavam dentro de mim, como um velho disco agarrado na vitrola.  Ainda hoje não sou muito dada ao choro; resisto bem às durezas da vida; suporto com resiliência as investidas do mal. Não me derreto em lágrimas na primeira dor dilacerante. Mas quer me ver chorar é me dirigir uma palavra rude. Ou quer me ver ficar irritada é destratar alguém perto de mim, agredindo uma pessoa verbalmente. Não sei lidar com a grosseria das palavras. Não aprendi a fazer como alguns aconselham: “deixar entrar num ouvido e sair no outro”. Podem ter razão esses falantes. Nem toda palavra merece mesmo ser escutada, acolhida, guardada no coração. Eu ainda não tinha levado essa possibilidade tão a sério, até o dia em que li um dos bem-humorados aforismas de Leminsk: “Num ouvido, escrito: entrada. Noutro ouvido, escrito: saída”. Simples assim! Essa parece ser a melhor opção em muitos casos. Talvez exatamente por amar as palavras, devamos relativizá-las algumas vezes. Talvez a maior consideração que podemos ter por elas é deixá-las se perderem no vento para que não sejam profanadas… Difícil, mas necessário. Sigo a vida tentando assimilar essa lição. Nesse jogo, confesso, ainda sou aprendiz.


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