Por que será que as palavras me doem?
E saem de mim com tanta fúria,
e se atiram com afiada precisão
que eu mesmo desconheço?

Por que será que elas me rasgam
e me dilaceram
e me expõem nu e aos meus pensamentos?

Por que, depois de dizê-las, me envergonho
de tê-las dito com tanta certeza,
com sangue nos olhos,
com ofensiva clareza?

Por que me latejam as palavras ditas,
qual criança que enrouqueceu de gritar,
que se exaustou de tanto correr,
que cãimbrou de tanto se esforçar?

Acho que entendo o profeta,
no fundo, sempre meio poeta,
que se horroriza com a palavra que grita
e escandaliza da violência que profecia.

No fundo, quisera eu também calar
e deixar que falem as pedras;
abandonar a dor dos profetas
fadada ao incurável esquecimento.

Porém, se o fizesse,
na tranquilidade de um cômodo silêncio,
que não machuca a ninguém – nem a mim,
já não teria restado mais nada
do que um dia me entreguei a amar.

Porque é próprio do amor resistir
e teimosamente sobreviver.
E, contrário à conveniência do calar,
é próprio do amor, em sua soberana altivez,
deixar-se dizer.


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