Jesus afirmou que o Reino de Deus não é deste mundo. Isso significa que os cristãos não devem se envolver em situações como lutas por justiça ou reivindicações de direito à dignidade?

Muitas pessoas pensam que o texto de Jo 18,36 é o que mais caracterizaria a diferença entre o pensamento judaico e o pensamento cristão porque o judaísmo seria, nesta versão, uma religião materialista baseada na espera de um messias terreno para resolver problemas terrenos e, ao contrário, no cristianismo Jesus nos apontaria para um mundo espiritual, para valores espirituais, para a eternidade da vida. Equivoca-se duplamente quem pensa assim. O cristianismo não é uma religião espiritualizada sem compromisso com a vida, nem o judaísmo uma mera redução à implantação de um reino nacional.

Nós cristãos entendemos que o reino de Deus não procede deste mundo, nem pertence a ele, nem termina nele. Tampouco se deve pensar o reino de Jesus em sentido metafísico, mas sim em termos de relação. Seu reino não é semelhante ao de um mundo de homens separados de Deus, mas sim um reino de homens em relação com Deus, que não está organizado a partir dos “valores” nem do exercício do poder como acontece no reino secular. Isso explica por que não emprega um exército de servidores para defender-se e por que repreendeu a Pedro por usar a espada na hora de sua prisão. Pedro não tinha aprendido a natureza verdadeira do reino de Jesus. O mestre de Nazaré não quis lutar contra o mundo nos termos próprios do próprio mundo, com suas armas e artifícios. É agindo de forma contrária a que um soberano agiria que Jesus vence o mundo. Mas não é também correndo da luta e se fechando num quarto a rezar que o reino de Deus acontece. Se o reino de Deus é relação, a luta pela justiça faz parte dele, pois essa luta é exatamente a defesa da vida humana, sem a qual o reino de Jesus é impensável.

A afirmação de Jesus de que seu reino não é deste mundo define o caráter absolutamente não nacionalista de sua realeza (contrário às doutrinas judaicas do messias rei). Não se pode imaginar essas palavras de Jesus nos lábios de um messias judeu, nem sequer de um messias mais espiritual, pois o messias de Israel era esperado como alguém que iria instaurar um grande império mundial e seria detentor de um poder político à maneira dos tiranos dessa terra.

O reino de Jesus é um reino interior, instalado nas consciências e não necessita de violência para manter-se nem para avançar; não está em oposição a nenhum reino, mas sim ao pecado e ao egoísmo. Por isso, os cristãos devem sempre lutar pela justiça e dignidade para todos, pois fazendo isso estão lutando contra o mal e destruindo suas armas opressoras. Mas para isso, lembrem-se: suas armas deverão ser as mesmas de Jesus, regidas pelo amor e pela não violência.


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