“Quem escuta minha palavra passou da morte para a vida” (Jo 5,24)

 

Uma proximidade
Um olhar
Uma Palavra
Uma vida nova
(Rosimeire Silva)

 

No dia a dia, somos testemunhas de inumeráveis vidas. Amiúde, podemos ver que muitas dessas vidas se encontram apagadas, sem luz, como se fossem “vidas sem vida”. A pessoa respira, trabalha, estuda, paga as contas, ri, festeja, porém, não encontramos em seu olhar aquele brilho, aquela faísca, aquela leveza que irradia a alegria de viver. Esse estado pode ser passageiro. Aliás, todo mundo transita, de vez em quando, por caminhos mais escuros; é parte da lida cotidiana. No entanto, há pessoas que vivem toda a sua vida sem dar esse passo das trevas para a luz, sem fazer a passagem da morte para a vida, desculpando-se com argumentos sólidos, capazes de sustentar vidas tristes e cheias de medos. Esses medos e conflitos, frequentemente, geram normas e leis, muitas vezes rígidas, que dão uma sensação de controle, certamente falsa.

Tenho um amigo que decidiu desconsiderar muitas normas e costumes da sociedade atual. Optou por esquecer seus medos e preconceitos e construiu, ele mesmo, uma casa de adobe, onde hoje mora feliz com sua família. A casa não tem fechaduras, nem rede de esgoto, nem produto químico algum para seu sustento. Ele e sua família moram nessa casa há quase dez anos e nunca tiveram problemas de roubos, doenças graves por causa da infraestrutura, e nem desconforto, porque a casa é pobre, mas não é precária, nem feia, nem pequena. Ela não tem goteiras quando chove; no verão é fresca e, no inverno, não precisa de muito fogo para ficar aquecida. Longe da cidade, a casa é bem silenciosa. Aliás, meu amigo está orgulhoso do estilo de vida que escolheu e vive em paz, porque a casa que ele sonhou e realizou provoca poluição zero e é suficiente para viver feliz.

Cânones estéticos, regras de mercado e medidas de segurança ficaram, para meu amigo, sem consistência nenhuma. Uma decisão corajosa de um coração que escuta o ritmo da natureza e vive de acordo com isso é causa de vidas tranquilas e plenas. O não a “leis” que estragam a vida se transforma em sim à vida, pois para bem viver não é preciso multiplicar as leis.

Estão afinados com o evangelho os corações que são capazes de escutar o apelo da vida e viver compassados com ela, afinal Jesus é a Vida (Jo 14,6). Ele sabe que a verdadeira ovelha de seu aprisco escuta sua voz a reconhece (Jo 10,1-4). Trata-se, então, de vivermos compassados, ritmados, sintonizados com tudo aquilo que tem som de vida, e vida com sentido, isto é, tudo aquilo que tem a sonoridade da palavra de Jesus. Desse modo, passaremos da vida-sem-vida de quem se rodeia de normas, usos e costumes inférteis fornecidos por outros, para a vida-plena de quem segue Jesus e, por ele, está disposto a mudar, se for preciso, radicalmente.

Que fique bem claro: as normas e as leis são necessárias para a convivência nas sociedades. Estamos falando de rigidezes, estreitezas, limites excessivos à vida que, por natureza, se apresenta conflitiva e desafiadora. Afinal, as crises e os desafios são positivos enquanto nos permitem avançar e sermos criativos. Enquanto que o excesso de limites exprime falta de segurança. O convite, então, é colocar toda nossa confiança naquele que tudo deixou para viver entre nós, se solidarizar conosco, sofrer e morrer por nós. O convite, sempre novo é renovar o nosso sim à Vida e nos deixarmos transformar por ele.


Crônica anterior:    108. Nada feito
Próxima crônica:    110. O que se é
Print Friendly, PDF & Email