“Moisés olhou, e eis que a sarça ardia no fogo e a sarça não se consumia” (Ex 3,2)

“Somos todos aprendizes.
Não vivemos o bastante para ser mais do que isso”
(Charles Chaplim)

A Bíblia está repleta de histórias que nos fascinam. São relatos que comunicam algo de especial e que nos inspiram na caminhada de fé.  É o caso do relato da manifestação de Deus a Moisés na sarça ardente, que queimava e não se consumia, presente em Êxodo 3,1-11.

Segundo os sábios judeus, a sarça ardente não é um arbusto, não é um mato, não é uma planta, mas o coração de Moisés, que, apesar de arder, ainda não se consumia para valer. Era apenas um fogo que trepida timidamente, ameaçado por qualquer vento que sopra sobre ele. Moisés vive uma experiência inicial; descobre um caminho que estava apenas começando. Uma relação de amizade e intimidade vai ser travada entre Moisés e Deus, mas isso levará tempo. Assim como Moisés, o nosso encontro com Deus é gradativo, é devir, é vir a ser. Tendo dado o pontapé inicial, essa relação precisa amadurecer progressivamente. Não está nunca completa, nem acabada. Na caminhada da fé, somos todos iniciantes.

É interessante perceber que Deus que vai ao encontro de Moisés; a iniciativa é sempre do Senhor. Ele vai ao encontro de Moisés no seu cotidiano, na sua lida com o rebanho, lá nos campos onde pastoreava suas ovelhas. É assim que Deus faz conosco. Ele vem ao nosso encontro na rotina de nosso dia a dia. Como disse o teólogo Bruno Forte, ele “não hesita em ‘sujar as mãos’ com nossa cotidianidade e os nossos limites, porque nos ama e deseja se encontrar conosco. O Senhor do céu e da terra se faz à nossa medida, para levar-nos à medida sem medida do seu amor”.

Moisés se vê diante de uma experiência fascinante. Deus se apresenta a ele como “aquele que é”, ou numa tradução ainda possível, “o Deus que está presente”, “que se faz próximo e que caminha conosco”. Moisés começa a entender que o Deus de sua gente não está distante; ele desce ao encontro do ser humano e se mistura na nossa história, fazendo parte da nossa vida. Deus não fica indiferente diante de nossas angústias e dores. “O Senhor disse: “Eu vi a aflição de meu povo que está no Egito, e ouvi os seus clamores por causa de seus opressores. Sim, eu conheço seus sofrimentos. E desci para livrá-lo da mão dos egípcios e para fazê-lo subir do Egito para uma terra fértil e espaçosa, uma terra que mana leite e mel…” (Ex 3, 7-8)

Por ser compassivo, Deus dá a Moisés uma missão especial: a de conduzir o povo rumo à Terra Prometida. Moisés reluta contra o chamado do Senhor, colocando uma série de objeções: medo, falta de confiança, timidez, insegurança etc. Ao ler o texto, logo nos identificamos com Moisés. Até parece que o escritor sagrado nos conhecia. Ele mais parece falar de nós e de nossas inseguranças que do pastor de Madiã. Diante das desconfianças de Moisés, o Senhor responde com confiança. Ele não duvida que Moisés dará conta da missão recebida. Deus sempre confia em nossas potencialidades – mais até que nós mesmos –  e, por isso, nos entrega verdadeiros tesouros, mesmo sabendo do barro de que somos feitos. Como diz a sabedoria popular: “Deus não escolhe capacitados, mas capacita os escolhidos”. Deus investe em nós. Confia-nos seus projetos, conta conosco. Por isso não desiste; insiste. Moisés acabou, por fim, não resistindo ao chamado divino e, aceitou a missão a ele confiada. Começou aí uma parceria que se firmou por toda a vida de Moisés. Nos altos e baixos da vida, Moisés – como um eterno aprendiz – foi aprendendo a responder positivamente ao Senhor e a confiar a ele toda sua vida.


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