“Levanta-se Deus e fogem seus inimigos” (Sl 68,1)

“Meu facão guarani quebrou na ponta, quebrou no meio.
Eu falei pra morena que o trem tá feio”
(Tavinho Moura e Murilo Antunes)

 

Que a vida é bela e cheia de bons momentos, ninguém pode negar. Por mais sofrida e doída que ela seja, alguns momentos de alegria e beleza fazem valer toda dor e peleja. Como disse Adélia Prado: “O céu estrelado vale a dor do mundo!”. Basta um único momento de êxtase, de gratuidade, de comunhão, de prazer, de ternura… prá gente esquecer – ainda que por uns instantes – a dureza da vida e ter vontade de recomeçar. Mas, apesar da beleza e da dinamicidade generosa da vida, não podemos negar também sua dramaticidade. De vez em quando, tudo desanda: nossa casa vira ruínas e nossas forças ficam extintas. É nessas horas que a gente vê nossas armas virarem pó e nos sentimos totalmente indefesos diante das adversidades que a vida nos imputa. Não tendo mais como fingir a gente canta o refrão popular: “Meu facão guarani quebrou na ponta, quebrou no meio; eu falei pra morena que o trem tá feio!”. Admitir a impotência já é um bom começo de recomeço.

O que fazer quando nossas armas parecem quebradas diante dos adversários que investem violentamente contra nós? Se nosso facão se quebrou, como vamos nos defender dos adversários? É nessas horas que visitantes indesejados como a melancolia e a depressão acham espaço para se instalar. Encontram nossas energias em baixa, nosso coração indefeso, nossa mente desarmada pelo cansaço, nosso sistema imunológico sem frente de guerra para ir ao ataque. Então, só um socorro de fora. Para nós que cremos, o socorro vem “do alto”. Como dizem alguns “Só Jesus na causa” ou como preferem outros “Deus está no comando!”.

A vida anda tão pelejada em alguns momentos,e para algumas pessoas especialmente, que a gente fica pensando como é possível dar conta. Na sua obra Grande sertão: veredas, Guimarães Rosa usa uma expressão muito especial: “Se Deus vier, que venha armado”. Afinal, do tamanho que andam os problemas, até ele vai precisar de ajuda para nos ajudar.

A sensação de lutar contra tudo e contra todos acompanha o ser humano. A bíblia está repleta de narrativas que mostram a impotência humana e a luta diária para viver uma vida com sentido. Até Jesus, diante da possibilidade iminente da morte, chorou e clamou por socorro: “Pai, afasta de mim este cálice!” (Lc 22,42). Nos salmos, são inúmeras as orações que revelam esse mesmo estado de ânimo, ou de desânimo – poderíamos dizer. O salmo 25 diz: “ A ti, Senhor, elevo a minha alma. Não triunfem sobre mim meus inimigos” (Sl 25,1-2). O salmo 22 reza: “Zombam de mim todos os que me veem; torcem os lábios, sacodem a cabeça” (Sl 22,8). Um pouco mais confiante o salmo 27: “Quando me assaltam os malvados para devorar-me a carne, são eles, os adversários e inimigos, que tropeçam e caem” (Sl 27,2). O livro dos Salmos mais parece uma coletânea de preces dos desesperados. Mesmo aqueles mais confiantes costumam não escapar de alguma frase pesada relatando a dureza da vida. Se o salmista fosse mineiro diria apenas: “O trem tá feio pro meu lado, meu Deus!”. O autor do salmo 68 foi mais atrevido. Não só lamentou, mas já decretou a vitória: “Levanta-se Deus e fogem seus inimigos!” (Sl 68,1).

Diante da luta que a vida é, o salmista tem razão, a fé pode ajudar e muito. Não para alienar, nem para nos escusar de nossas tarefas, mas para nos fazer consertar nosso facão quebrado e nos munir de novo para a batalha. A fé é um dom precioso. Quem põe sua confiança na força do Altíssimo não se sente vencido, apenas derrotado momentaneamente. Isso não significa dizer como alguns gostam: “Jesus dá vitória” ou usando um versículo bíblico: “Agindo Deus, quem impedirá?” (Is 43,13). Se tem uma coisa que o cristão enfrenta é a derrota. Para falar a verdade, nós cristãos seguimos um derrotado. O mestre de Nazaré foi perseguido, vencido, crucificado. E a sorte dos cristãos não é muito diferente.

Então, de que vale a fé, perguntam alguns, se não presta para nos defender nem garante vitória? Presta para dar força para viver. Que a vida é luta, sabemos todos. Que somos derrotados em diversas batalhas, já experimentamos há muito tempo. Que a fé não nos imuniza contra as intempéries da vida, estamos mais que conscientes. Mas a fé nos fortalece, porque sabemos que não estamos sós. O Ressuscitado – o mesmo fracassado da cruz – está conosco. Sofrer sozinho é sofrimento inglório, infértil, sem sentido. Lutar e pelejar na presença de Deus é arrancar da vida a plenitude de seu sentido. Então, enquanto a tragicidade da vida persiste, admitamos: “O trem tá feio”, mas sigamos cantando confiantes: “Eu estou nas mãos do Senhor; cada passo que dou, toda parte onde vou, eu estou nas mãos do Senhor!”.


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