Faz parte da cultura judaica a diferenciação. No primeiro relato da criação no Livro do Gênesis (1,1–2,4), essa diferenciação fica muito bem marcada. Deus criou o céu e terra, a luz e as trevas, as águas de cima e as águas de baixo, o sol e a lua, o dia e a noite, o homem e a mulher etc. Cada criatura se mostra com uma marca própria e não se confunde com o seu complemento, ou com o seu avesso.

Assim, de paralelismos antitéticos em paralelismos antitéticos (uma coisa e seu contrário), o escritor do relato vai mostrando que a vida é pluralidade. A luz é bela, mas só é assimilada a partir do seu contrário: as trevas. A vida é um dom, mas só é valorizada a partir da consciência da morte. O sol é desejado, mas é no clarão da luz que vemos seu brilho fulgurante. Para os judeus, marcar a diferença era uma questão de preservação da identidade, de garantia da pureza, de continuidade da vida. Se as coisas eram homogeneizadas perdiam sua fecundidade, sua beleza. Por isso, a clássica frase: “Deus criou o ser humano à sua imagem: homem e mulher os criou” (Gn 1,27). O Deus da vida cria na diferença e demarca a diferença.

Ando preocupada com esse desejo de alguns católicos de colocar todo mundo na mesma forma: todos rezando a mesma liturgia, todos sujeitos à mesma ética, com os mesmos padrões morais, com os mesmos costumes, com os mesmos amores, com o mesmo modo de formar família, com o mesmo modo de rezar, de criar filhos… Isso não é nada bíblico! Deus é o Deus da diversidade.

Não sei bem como funciona a lógica de quem nega a diversidade e prefere a sociedade monolítica, que não suporta a diferença e a pluralidade da vida, mas sei que a fé cristã não coaduna com essa tentativa de matar a pluralidade. Os discursos de alguns representantes da instituição Igreja assusta. Querem uma sociedade sem as demarcações da diferença. “Passa a régua e fecha a conta”, essa é a lei.

Como sempre, o que o discurso religioso não dá conta de dizer a poesia fala com facilidade. Algumas canções e poemas, como Diversidade, de Lenini, traduzem bem as verdades universais que sustentam a fé.

Foi pra diferenciar

Que Deus criou a diferença

Que irá nos aproximar

Intuir o que ele pensa

Se cada ser é só um

E cada um com sua crença

Tudo é raro, nada é comum

Diversidade é a sentença.

A diferença é para demarcar as criaturas, não para separar. É para nos aproximar que ela existe, pois, diferentes uns dos outros, nos completamos na fraternidade, na aceitação do do outro, na acolhida de sua vida como dom. A homogeneização elimina a caridade, o exercício da doação, do coração aberto àquilo que nos escapa.

Para aqueles que andam incentivando a uniformização da vida, da sexualidade, da religião, da expressão do amor e da vida, aconselho repensar sua opção cristã. A fé cristã é diversidade, pluralidade. Qualquer tentativa de “passar a régua” escapa ao evangelho de Jesus.

Para os que trabalham com a pastoral da diversidade, apoiando e acolhendo não só os casais homoafetivos, mas toda a diversidade da Igreja, nosso incentivo. Esses espaços de liberdade são fecundos, devem ser multiplicados. Em plena sociedade complexa e multirreferencial como a nossa, esse é um começo de diálogo com os contemporâneos. Fica aí a dica!


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