Com a quaresma chegam as crendices e os medos. Apesar de toda informação disponível hoje, não falta quem pense que esse tempo é mais perigoso que os outros, que o demônio está solto, que os lobisomens estão mais à vista, que as tentações se multiplicam… Há quem fique aflito para ver esse tempo findar, não para celebrar a páscoa, mas para se livrar das tentações, dos espíritos malignos e dos malefícios que acompanham a quaresma. Sentem-se mais expostos aos males, mais sujeitos aos ataques do inimigo, mais propícios às seduções dos espíritos satânicos. Bobagens que foram ensinadas outrora e que influenciam ainda hoje.

Alguns pregadores reforçam essas crendices. Insistem tanto na força do mal operante na quaresma, que levam o povo a temer inimigos imaginários. Tomam como ponto de partida a tentação de Jesus no deserto, retirando o relato de seu contexto e esvaziando-o de seu significado teológico mais pleno. Outros partem de textos das Cartas aos Efésios ou aos Colossenses, que falam de postestades, dominações e espíritos malignos espalhados pelos ares. Mais uma vez, descontextualizam os escritos, entendendo tudo ao pé da letra.

Preocupa-me pastoralmente uma questão muito específica em relação a essas crendices: a instrumentalização do medo por parte dos pregadores. São João, na sua Primeira Carta, já nos advertia que o contrário da fé não é a descrença, nem a dúvida, nem o ateísmo, mas o medo. Para ele, no amor não há temor ou medo, pois onde há temor, há ameaça de castigo e, onde há castigo, o amor não é perfeito (1Jo 4,18).

Jean Delumeau, em seu livro A história do medo no ocidente, escreve sobre a parceria da fé cristã com o medo. Como se não faltassem guerras, pestes, fomes, lobisomens, fantasmas, a fé cristã criou o pior de todos os medos: o medo de Deus. Aquele que deveria ajudar a vencer os temores tornou-se um castigador supremo, um juiz capaz de sentenças horrendas, de jogar seus réus no inferno e dar-lhes a danação eterna. Um horror. O medo tornou-se locus theologicum, ou seja, muita teologia foi construída a partir desse princípio. E o que é pior: continua sendo, pois não faltam hoje em dia correntes teológicas que alimentam o medo, que impõem a culpa, que torturam as consciências com um Deus terrível, feito à imagem e semelhança de seus próprios monstros.

Ando cansada dessas bobagens. Como me disse um amigo: “Não me falem de demônios, de forças do além, de espíritos impuros, de dominações, de autoridades e potestades espirituais, ou de outros afins que poderiam investir sobre nós. Não estamos dando conta do mundo material, dos inimigos visíveis… Não me torturem acrescentando os invisíveis”. Seria bom ajudar nossa gente a fazer essa passagem do medo à confiança, do mundo invisível ao visível, do Deus castigador ao Deus misericordioso de Jesus. Em tempos em que inimigos reais calam os profetas, matam Dorotes, Romeros e Marielles e nos subjugam com o poder das armas, seria de grande valia ajudar nossa gente a se libertar dessas crendices. Melhor usar nossa energia para focar em inimigos reais. Há muitos diabos por aí destruindo nossa gente e roubando nossa dignidade. Fica aí a dica!


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