Quando a comunidade celebra a eucaristia ou qualquer outro sacramento, não inventa um rito nem deixa tudo por conta da criatividade dos participantes. Também as celebrações não estão à mercê dos caprichos do ministro que as preside ou, pelo menos, não deveriam estar. Há um manual que orienta os passos da celebração. No caso da missa, temos o missal; no caso dos outros, o sacramentário. Com a ajuda desses manuais de ritos, os sacramentos são previstos.

Há quem, com medo da exagerada criatividade de alguns, defenda rigorosamente o seguimento das prescrições litúrgicas, também chamadas de rubricas . De fato, tem gente com mente tão fértil que ameaça o bom senso e a sobriedade do encontro fraterno. De vez em quando as redes sociais difundem alguns presbíteros fazendo estripulias litúrgicas: uns fazem a entrada da missa carregados por seus ministros, outros andam de bicicleta e ainda outros construíram elevadores no altar, como a antiga nave espacial da Xuxa. Os casos bizarros são muitos; e o senso do ridículo é quase nulo.

 Se por um lado comete-se o pecado da ostentação e da folclorização da liturgia, por outro padecemos de ritualismos. Coisa mais comum que há é a gente encontrar “missas enlatadas”, aquelas celebrações automáticas nas quais o ministro apenas abre o livro e lê os ritos. Elas carecem de vitalidade, de espontaneidade, de espírito orante, de algo que vem desde dentro e que dá sentido a cada palavra proferida, a cada gesto repetido. São como comida enlatada; aqueles macarrões instantâneos que a gente abre o copo e despeja água e pronto. É só comer correndo e sair apressado para outra atividade.  “É comer pra não morrer”, dizia meu pai.

Essas celebrações quase nunca nutrem a alma. Por meio delas, a gente cumpre o preceito, mas não satisfaz as ânsias do coração. Elas dispensam o prazer da preparação, do convívio, do sentar-se à mesa, da partilha, da vida fraterna… Por isso tanto faz participar aqui ou ali. A comunidade reunida é só um detalhe; ela não é fator determinante.


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