“Depois vi um novo céu e uma nova terra”(Ap 21,1)

“Irá chegar um novo dia
Um novo céu, uma nova terra, um novo mar
E, nesse dia, os oprimidos
A uma só voz, a liberdade, irão cantar”

 

Não muito distante de nós, sempre há quem se queixe de alguma realidade, seja ela política, religiosa, social ou familiar. Sonhamos com um mundo melhor, almejamos a felicidade, demonstramo-nos insatisfeitos com o modo de viver fútil e sem sentido que muitas vezes assumimos. Basta uma queixa sobre a demora do ônibus quando estamos parados no ponto à espera do coletivo, para desencadear uma enxurrada de desabafos, não só sobre o transporte, mas sobre todas as coisas. De todos os lados, ecoam pedidos de socorro. E, aborrecidos, constatamos que a grande maioria das pessoas já não acredita que vale a pena gastar energias em causas do bem comum.

Estamos cansados de assumir causas que não são nossas e de lutar por projetos que não escolhemos. Estamos desacreditados de um sistema político que, de tão corrompido, exala podridão. Estamos desiludidos também no campo religioso, pois temos visto a fé ser instrumentalizada em favor do medo e do terror, em vez ser sinal de libertação e de esperança. Todos os dias temos nossos direitos negados; nos tornaram “cidadãos de papel” e, cansados, baixamos nossa cabeça num suspiro de desesperança, acreditando que tudo está perdido!

Mas há quem pense diferente. Ainda bem que há quem pense diferente.

Ao longo da história cristã, temos exemplos de profetas e profetizas que sonharam com uma realidade diferente. Homens e mulheres que acreditaram na “utopia” do Reino e devotaram suas vidas à sua construção aqui na Terra. Homens e mulheres que, impulsionados pelo evangelho de Jesus Cristo, buscaram transformar a realidade sofrida, mesmo às custas de seu próprio sangue. Pessoas que deram voz, vez e lugar aos pequeninos, aos mais fragilizados e aos que vivem na periferia da vida – sempre carregando o fardo de uma existência pesada demais. Esses homens e essas mulheres se desgastaram em nome do amor, como o Nazareno – que passou por todo canto só fazendo o bem. Em nome da fé no Ressuscitado, denunciaram injustiças, quebraram correntes da escravidão, lutaram com os índios por suas terras, devolveram a dignidade ao povo do campo e da cidade, anunciaram e promoveram a construção do Reino de Deus entre nós e, quando diante de ameaças de morte, bradaram sem medo: “Minhas causas valem mais que minha vida”.

Diante do testemunho de tantos homens e mulheres, impossível não nos perguntar: Acaso não são esses os profetas dos nossos tempos? Acaso não são essas as vozes que clamam no deserto e nos pedem a preparação de um caminho para a vinda do Senhor? Será que não estamos repetindo o que fizeram com o próprio Jesus quando o chamaram de subversivo e fecharam os ouvidos ao anuncio da propagação de um reino de paz e amor que ele anunciava? Será vã a palavra de libertação pronunciada por Jesus Cristo e presentificada hoje por esses profetas e profetizas de nosso tempo?

Em uma de minhas andanças, fui parar em Ribeirão Cascalheira-MT e, por lá, muitas vezes ouvi o povo cantar:“Aqui estão os profetas que nestes tempos nos deram as esperanças e forças para andar, na cidade e no campo, no nosso meio estão”. E faziam memória a todos os seus antepassados, homens e mulheres comuns, Joãos, Pedros, Margaridas, Titos, Dorothys, Simãos, Raimundos, Sepés e Marias; padres, freiras, índios, posseiros, líderes. Homens e mulheres que sonharam e lutaram por um mundo melhor, vencendo o medo de perder a própria vida. Fizeram frente às injustiças institucionalizadas, comprometeram-se com a mensagem de Jesus Cristo, defendendo a vida ameaçada.

Agora, o que fazer? Só nos resta ouvir o apelo de Deus, presente em Hebreus. Diante de“tamanha nuvem de testemunhas em torno de nós, deixemos de lado tudo o que nos atrapalha e o pecado que nos envolve. Corramos com perseverança na competição que nos é proposta, com os olhos fixos em Jesus, que vai à frente da nossa fé e a leva à perfeição” (cf. Hb 12,1-2). Em nome do Evangelho de Cristo, invistamos nossas forças na construção de um novo céu e de uma nova terra, onde reinam a justiça e a igualdade. Deixemos que, pela força do Espírito, o Reino aconteça entre nós! Ainda resta a esperança da fé semeada em nossos corações. Assim, em cada pequena vitória da vida sobre a morte, celebramos a páscoa do Senhor e testemunhamos que é possível um novo céu e uma nova terra.


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