Não é incomum encontrar em nossas comunidades eclesiais o uso de aparelhos de multimídia. O retroprojetor foi nosso companheiro de jornada em encontros, celebrações da palavra e até mesmo nas celebrações eucarísticas. Lembro-me com alegria e graça a felicidade de um povo lá dos Cafundós do Judas que, por ocasião de uma missão, encantou-se por ver, pela primeira vez, as letras na parede. Uma novidade que enchia os olhos, facilitava o canto e liberava as mãos para os gestos e as palmas. Era bonito ver nossa gente cantando e louvando, ajudada por um recurso tão simples, mas tão eficaz.

Tendo caducado o retroprojetor – cujas transparências eram feitas a mão por alguém de caligrafia desenhada ou, mais tarde, por meio de uma copiadora – o datashow ocupou o espaço nos templos e deu continuidade ao uso dos recursos de multimídia nas igrejas. Muitos abusaram, é bem verdade. Influenciados pela cultura da imagem, destituíram o culto de qualquer exercício de escuta e transformaram-no num espetáculo visual, projetando não só as canções, mas também as orações eucarísticas, textos bíblicos, imagens relacionadas ao evangelho do dia, etc.

Nada contra o uso de imagens nos templos – coisa mais que comum em nosso ambiente católico, sempre tão carregado de vitrais multicoloridos, imagens de gesso e madeira, ícones desenhados por todo parte, cartazes, flores, enfeites diversos. Vamos admitir: a cultura da imagem no meio católico é bem mais antiga que a entrada dos aparatos da multimídia. Já há tempos que não sabemos mais ouvir a palavra de Deus, sempre impressa num jornalzinho litúrgico ou num livreto de liturgia diária. Lembro-me das novenas de natal ou da campanha da fraternidade, em forma de horríveis jograis, onde cada oração, cada texto bíblico, cada suspiro, estava escrito, não para inspirar um bate-papo agradável ou a escuta do que Deus tem a falar à sua gente, mas para ser lido letra por letra, como se rezar e fazer comunhão com Deus fosse algo sempre ritmado pela escrita.

Eu realmente não consigo compreender quem vitimiza o datashow ou outro aparato desse estilo (já deve ter outros mais modernos que desconheço, pois sou da geração antiga!), impedindo o uso de tais recursos nas celebrações. Vamos admitir: nossas celebrações estão cheias de aparatos tecnológicos, desde o missal que o padre usa para seguir o ritual, passando pelos aparelhos de som que possibilitam a comunicação com os fiéis, até o ar condicionado ou ventilador que refresca a gente durante o culto. Tudo é aparato tecnológico!

Alguns apelam para o argumento que estes aparatos da multimídia desviam a atenção do altar e, consequentemente, do presidente da celebração (que o faz in persona Christi). Mas (perdoem-me os que pensam diferente!) não somos mais crianças para sermos tratados assim. Se for desse modo, eliminemos – por favor – todas as imagens das igrejas, quebremos os vitrais coloridos, retiremos os cartazes de dízimo que poluem os templos… Não é preciso seguir com a lista. Já deu para perceber que o problema não é desviar a atenção do altar. Até uma pessoa que tosse ou espirra pode nos desviar a atenção – e desvia muitas vezes, mas fazer o quê? –, sem falar das vestes litúrgicas, cheias de rendas e bordados, ao modo clássico, ou estampas coloridas, ao estilo mais moderno, que valoriza a inculturação e as minorias… tudo pode nos desviar do mistério celebrado.

Será que o problema está no fato de olhar ou não para o altar ou presidente da celebração? Meu Deus, e quem não enxerga: não pode celebrar dignamente os mistérios? A questão não é essa, nem a solução é eliminar o excesso de informações para se ligar na escuta da palavra e do mistério celebrado. Também um deficiente auditivo pode celebrar dignamente os mistérios de Deus. E, na maioria das vezes, para que eles tenham o direito de fazê-lo com a dignidade que merecem, o rito é traduzido em libras e não há nada demais nisto. Os surdos olham para o tradutor e não para o altar ou para o ministro. E ninguém implica com isso!

Realmente, confesso: não entendo por que tanta birra com o datashow e outros aparatos semelhantes. Eles podem ajudar a bem celebrar, se usados corretamente. Quando usados indevidamente, não é só na celebração eucarística que eles são inconvenientes. Causam mal estar também numa palestra ou nas salas de aula. Ninguém aguenta um pregador ou professor que fique lendo suas próprias anotações projetadas numa tela. Ler a gente sabe – graças a Deus – e pode ler em casa mesmo, sem precisar ir à aula ou a um congresso para isso. Também na liturgia, a projeção deveria ser usada apenas para facilitar a comunicação, especialmente para ajudar o povo a cantar. Não vamos à comunidade eclesial para ler textos projetados na tela (ou impressos no jornalzinho dominical, o problema é o mesmo). Vamos ao culto para celebrar a vida. É tão belo quando uma comunidade inteira canta a missa (e não só canta na missa), reza o que canta, interioriza as canções disponibilizadas a todos com letras grandes e visíveis na tela, podendo liberar o corpo – mãos, pés e coração – para se movimentar no ritmo das músicas, sem receio de deixar o corpo inteiro rezar.

Sou do grupo dos que defendem o uso dos aparatos de multimídia nas celebrações. Não para desobrigar o presidente da celebração e a equipe de liturgia da árdua tarefa de preparar o culto e de ajudar o povo a entrar no mistério celebrado. Não! Ao contrário, para fazer deles nossos aliados, assim como se tornaram nossos aliados os aparelhos de som, o ar condicionado, os livros e folhetos, os instrumentos musicais… tudo aparato tecnológico! Aconselho os líderes, padres e pastores de nossa gente, a repensar esta questão. Não é proibindo estes aparelhos que vamos conseguir a atenção de nossa gente para o mistério que celebramos, mas é celebrando de coração e com verdade o mistério pascal, seja com aparatos tecnológicos ou não. Fica a dica, só para fazer pensar um pouco.

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