Eu não sou adepta das missas com grandes multidões. Sinto-me bem mais à vontade celebrando numa pequena comunidade, onde todos se conhecem pelo nome, se amam e se ajudam… Tenho até saudades das missas com o grupo Semente, na UFV, onde celebrávamos à meia-noite, depois de meses a fio estudando, refletindo as Escrituras, ou das pequenas comunidades de Paracatu, onde trabalhei por 6 anos como missionária leiga.

Mas, vamos admitir, nossas comunidades estão bem longe desse ambiente familiar e fraterno que poderia favorecer muito o mistério que celebramos na Eucaristia. O costume é ter igrejas com grupos de pessoas que pouco se conhecem e nada se ajudam… Bom, já ficou no passado aquele modelo de igreja primitiva, com cristãos rezando às escondidas nas catacumbas…

A fé cristã ganhou os lugares públicos desde 311 com Constantino e, depois, ainda mais com Teodósio em 380. Não é de se estranhar que ainda hoje, nossa gente encha praças, estádios e clubes, celebrando animadas liturgias, chamadas por alguns – não sem uma pitada de malícia – de missas–show.

Não estamos negando que haja exageros e até desvios na organização desses eventos, mas, vamos admitir, essas liturgias não são exclusividade de alguns padres cantores ou de alguns movimentos católicos com espiritualidade pentecostal. Desde que eu me entendo por gente – e isso já faz tempo! – lembro-me de grandes eventos católicos acontecendo. E nunca faltou a eles o caráter de show. Grandes celebrações pascais, procissões com foguetórios que não acabavam mais, festas de padroeiros com missas campais, concentrações por ocasião de visitas de papas ou de canonização de santos, momentos fortes nos grandes centros religiosos do país…

Por que estranhamos tanto se agora algum padre consegue arrebanhar tanta gente com sua cantoria? Por que achamos tão absurdo que missas e outras concentrações religiosas consigam ajuntar nossa gente enquanto nossas celebrações dominicais, na maioria dos casos, continuam esvaziadas? Lembremo-nos: a liturgia católica sempre teve, desde os tempos mais antigos, um caráter de show. Multidões já se ajuntaram – e ainda se ajuntam – para ouvir corais maravilhosos que entoavam cantos gregorianos e outras canções religiosas. As paraliturgias da semana santa, acontecidas do lado de fora do templo, sempre atraíram mais gente que as celebrações litúrgicas no interior das igrejas.

Muitos protestarão dizendo que não é a mesma coisa. E não é mesmo! A diferença está em primeiro lugar no modo de expressão: o órgão cedeu lugar a instrumentos mais barulhentos; o coral perdeu espaço para conjuntos de músicas cristãs ao modelo das bandas pops; o gregoriano cedeu lugar ao rock, ao hip hop e ao samba. E mais: outra diferença gritante se faz perceber: enquanto antes arrebanhar multidões era privilégio de poucos e com data marcada por ocasião de algum evento prescrito pelo ano litúrgico, hoje basta ter carisma e coragem para a multidão se agregar. A concentração de cristãos foi democratizada, popularizou-se…

Não vejo problema algum nesses eventos. Mas há riscos, é claro. Não tenho nada contra multidões, mas que se reúnam para celebrar o mistério pascal de Cristo, onde se encontra o sentido da liturgia. Se um padre tem esta facilidade de congregar, que a aproveite para o Cristo. Mas que uma multidão se reúna por causa do padre que é um show e faz da missa um programa de auditório infantilizando todo mundo com gestos até ridículos, parece triste. É instrumentalização da fragilidade e ignorância das pessoas. Instrumentalizar a fragilidade dos outros em vista do sucesso vai bem contra o Evangelho, onde Cristo jamais instrumentaliza a dor do outro e se recusa a fazer sucesso em cima de seus dons maravilhosos. A instrumentalização, às vezes, acontece, infelizmente, nestas missas, que também podem ser muito moralizantes e superficiais. Com multidão ou sem, a missa é para ajudar a experiência da graça de Cristo. Se um padre tem o dom de cantar, pregar e atrair, ótimo!  Mas que tudo seja posto a serviço do mistério e da Palavra de Cristo. Vejo estas celebrações com naturalidade: não vão salvar a Igreja de sua crise, nem vão afundá-la mais para o buraco.

Em vez de cantar e dançar o congado ou de fazer cavalgadas, ou em vez de longas procissões cantando benditos ou ajuntamentos em torno das rezadeiras que entoavam o ofício de Nossa Senhora, nossa gente tem preferido esse tipo expressão popular. Quem defende tanto a religiosidade popular não deveria condenar essas manifestações. São apenas manifestações da religiosidade popular no estilo urbano, pós-moderno, e não mais no estilo rural de antes. Aliás, já é hora de a Igreja entender que não vive mais no mundo rural. Nossa pastoral deixa, às vezes, a impressão de ainda vivermos nas vilas do interior de Minas Gerais.

Print Friendly, PDF & Email