Outro aspecto que toca as crianças é o costume de distribuir, na Missa, o pãozinho (em algumas comunidades, a bolacha) na hora da comunhão. Somos de opinião que esta prática não é educativa, nem litúrgica. Entendemos que ela carrega em seu interior uma boa intenção, além de um respeito enorme pelos pequeninos, e admitimos que estes são importantes valores cristãos. Acontece, porém, que não basta isto. Alguns acham o costume bonito, aquele tanto de criança na fila para pegar o pãozinho. Mas beleza separadamente não pode ser argumento para uma prática litúrgica, apesar de o belo ser elemento essencial da liturgia. Outros acham que é singelo, afinal as crianças veem seus pais e outros adultos comungando e eles ficam sem comer nada na hora da comunhão. Essa também não é argumentação razoável. Muitas vezes as crianças veem seus pais e amigos comerem e beberem e não lhes é permitido fazer o mesmo. O pai bebe cerveja, por exemplo, e não a dá ao seu filho. Ao negar-lhe álcool, apenas diz: “você ainda é criança; não pode”. Ou a mãe come algo picante, com muito condimento, e também não serve a seus filhos ainda crianças. Sabe que tal alimento não é para eles. Nem tudo que a criança vê o outro comer precisa ser dado a ela. Na rua, por exemplo, ela vê outra criança comer algo, diz que quer e a mãe diz: “Não. Não é hora de comer.” e basta isso. Engana-se quem pena que criança não pode receber um não, que não pode ser contrariada.  O não é educativo e pode fazer muito bem. Desde cedo, as crianças devem saber que a Eucaristia é um alimento especial e que chegará a hora certa de elas participarem desta mesa. Além disso, corre-se o risco de as crianças – e pais, inclusive – começarem a confundir as coisas. Elas começam a participar do “pãozinho de Jesus” ou “pãozinho santo” com tal reverência que não saberão distingui-lo da Eucaristia em ocasião oportuna. Já vi, não poucas vezes, pais e mães entrarem na fila para pegar o “pãozinho” para levar para o filho que não veio. Cria-se mais um costume, mais um rito sem fundamento, que passa a se firmar simplesmente pela prática; daí a pouco esta se torna uma devoção que se difunde e que não é possível mais combater. Que fique bem claro: esta prática liturgicamente não faz sentido algum; é um ritual alheio à celebração eucarística. Pedagogicamente está fundamentada em psicologia duvidosa; aquela de que as crianças vão ficar traumatizadas de receber um não. Todos nós adultos recebemos muitos nãos quando crianças e nem por isso ficamos magoados ou traumatizados. O não faz parte da vida, especialmente da vida da criança. Resta o argumento da beleza, mas este carece de força se separado dos outros argumentos. Aplaudimos todos os párocos e equipes que se preocupam com as crianças, mas este não é melhor modo de valorizá-las.

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